NOTÍCIAS

Jornal afirma que aumento dos limites de velocidade nas marginais é “política pública sem monitoramento”

04/12/2017



Matéria deste domingo (3) da Folha de SP afirma que a prefeitura não apresenta estudo ou detalhamento que sustente que o aumento da velocidade não teve influência em nenhuma das mortes ocorridas este ano nas marginais. Prefeito Doria reage e afirma: nenhum estudo é necessário sobre mortes nas marginais

Matéria do jornalista Fabrício Lobel, publicada neste domingo (3) na Folha de SP, afirma que os acidentes com mortes nas marginais em 2017 contrariam o discurso da gestão Doria.

A matéria cita o mantra que a CET tem repetido sempre que ocorre uma morte nas vias das marginais Tietê e Pinheiros:

“1) a velocidade não teve influência em nenhuma dessas mortes; 2) as vítimas são basicamente motociclistas, numa associação à imprudência”.

A partir daí o jornalista afirma que a prefeitura não apresenta estudo ou detalhamento que sustente o primeiro ponto, que desassocia o aumento da velocidade à causa ou influência sobre as mortes.

A reportagem lembra que a Folha fez seguidos pedidos à CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), “mas nunca obteve uma resposta” sobre qualquer estudo ou até mesmo dados detalhados que permitam sustentar que a velocidade não tem nada a ver com as mortes ocorridas.

O jornalista Fabrício Lobel ainda cita que “parte dos acidentes com mortes nem passou por investigação policial, o que poderia apontar possíveis causas ou responsáveis. Ao menos sete ocorrências não têm suspeitos identificados. Em pelo menos quatro, a perícia local nem foi feita (casos em que a vítima chegou a ser socorrida, mas morreu no hospital)”.

Para concluir que o aumento dos limites de velocidade nas marginais “é uma política pública sem monitoramento”, a Folha fez duas coisas. Em primeiro lugar se debruçou sobre os registros policiais dos acidentes ocorridos nas marginais em 2017 ao longo dos últimos três meses, e na sequência submeteu as descrições oficiais desses registros a engenheiros especialistas em segurança viária, além de conversar com familiares das vítimas.

Após essas ações, como resultado da “investigação jornalística”, a Folha conclui que o cenário é diferente do que vem sendo divulgado pela prefeitura de SP.

“O principal ponto é que as informações disponíveis sobre os acidentes são insuficientes para descartar a influência da velocidade como um dos fatores contribuintes, como repete a prefeitura”, escreve Fabricio Lobel.

De acordo com o jornalista, o número de mortes nas marginais até outubro deste ano “indica o final de uma tendência de queda verificada em anos anteriores”.

Aos números: em 2014 foram registradas 68 mortes nas marginais; em 2015, ano em que os limites de velocidade foram reduzidos a partir de julho, este número caiu a 46; em 2016, foram 26 e, em 2017, até outubro, a própria Folha já contabilizou 27 mortes.

DISCURSO DO PREFEITO

A matéria da Folha faz um histórico das afirmações do prefeito João Doria sobre a questão dos acidentes ocorridos nas marginais.

Cita uma declaração de Doria feita no meio do ano, ocasião em que o prefeito paulistano disse que as mortes acompanhavam um aumento, de acordo com ele, de 15% no fluxo de veículos nas principais vias. A Folha afirma que não obteve da prefeitura qualquer explicação quanto a origem desse dado.

Já em agosto, mês em que o número de mortes nas marginais alcançava a marca de duas dezenas, Doria voltou a afirmar em vídeo que nenhum acidente se relacionava com o aumento das velocidades. “Não há qualquer correlação de que houve um aumento de acidentes e o fato de termos ampliado as velocidades nas marginais Tietê e Pinheiros.”

Para comprovar seu raciocínio Doria teria afirmado que a maior parte dos acidentes teria ocorrido em momentos de pico de trânsito, portanto com veículos trafegando em velocidade baixa.

A investigação da Folha, no entanto, contesta também esse raciocínio, pois constatou que o perfil dos acidentes com mortes nas marginais é o oposto do descrito pelo prefeito: 78% das mortes ocorreram fora do horário de pico na cidade de São Paulo, com destaque para as madrugadas ou finais de semana.

Outra afirmação que o jornal aponta como inverídico seria a de que, segundo afirmação do prefeito em março deste ano, 80% das vítimas eram motociclistas. Doria afirmara na época: “O problema não é a velocidade. É a imprudência e desobediência à sinalização. Toda morte há de se lamentar bastante. Mas eu volto a repetir que os motociclistas precisam ter uma atenção maior ao dirigir nas marginais”.

O levantamento do jornal, novamente, mostra dado diferente: até outubro, o índice real de motociclistas mortos é mais baixo. Ao invés de 80%, representam 66% do total. Entre as vítimas, cita a matéria, “está um agente da CET com 25 anos de experiência, atingido no dia 5 de agosto por um carro na marginal Tietê, antes do acesso à via Dutra”.

OUTROS DADOS:

No levantamento feito pela Folha constatou-se ainda que sete pedestres estão entre os mortos. Três deles em um único acidente, no dia 30 de setembro, atropelados por uma motorista embriagada.

Duas mortes foram de pessoas que estavam dentro de carros (um motorista e uma passageira), casos que não foram comentados até agora pela prefeitura, afirma a matéria. “Em um deles, uma adolescente de 14 anos estava no banco traseiro quando o carro foi atingido na traseira por outro e ela foi lançada pelo para-brisa”, afirma a matéria.

A CET afirma que, para melhorar as condições aos usuários, foram implantadas medidas de segurança nas vias, adotadas desde o início do ano. Nesse ponto, um dos especialista ouvidos pela Folha, Sergio Ejzenberg, mestre em transportes pela USP, afirma que tais medidas implantadas “tiveram apenas caráter compensador em relação ao aumento das velocidades”, já que o índice de mortes até aqui é semelhante ao de 2016. Sergio Ejzenberg conclui: “Sabe-se que o investimento feito para aumentar a operação de segurança viária nas marginais foi muito superior. E mesmo assim, o máximo que se conseguiu até agora foi praticamente igualar o desempenho do ano anterior? Isso é pouco”.

Entre os estudiosos que comentaram os dados colhidos pela Folha estão os engenheiros Philip Gold e Jaime Waisman, especialistas em análises de acidentes.

A matéria informa que para ambos os boletins de ocorrência de acidentes trazem poucas informações “que seriam importantes para análise criteriosa e poderiam fundamentar políticas de segurança”.

Para Waisman, o ideal seria a CET recomendar um protocolo de perguntas a ser preenchido pela Polícia Civil ao registrar um acidente de trânsito. “Como se formula uma política pública correta se não temos dados confiáveis sobre como ocorreram os acidentes?”, pergunta o especialista.

Por fim, mostrando um descompasso entre os dados divulgados pela Prefeitura, a matéria diz que “a Polícia Militar e o Samu viram aumentar a quantidade de atendimentos a acidentes nas vias no primeiro semestre”.

OUVINDO O OUTRO LADO

Ao final da matéria, o jornal dá espaço para a manifestação da Prefeitura de SP.

Por meio da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), a Prefeitura voltou a frisar que “de acordo com dados coletados no local” e na “observação das suas circunstâncias”, nenhum dos acidentes fatais registrados nas marginais Tietê e Pinheiros em 2017 tem relação com o aumento das velocidades.

“Os acidentes com motociclistas e seus garupas, por exemplo, em geral se referem a ultrapassagens arriscadas de motos entre faixas de veículos, entre caminhões inclusive”.

A CET observa que seus dados consolidados apontam redução de acidentes com vítimas nas marginais de janeiro a agosto (com ou sem óbito), em comparação com igual período de 2016.

Nesse mesmo intervalo, a marginal Pinheiros registrou queda de 24% no total de acidentes com vítimas (fatais ou não), também na comparação com o mesmo período do ano anterior. Na Tietê, a queda é de 3%.

A CET contabilizou em números absolutos: 140 acidentes com vítimas na marginal Tietê (12 delas fatais). No mesmo período de 2016, foram 13 mortes.

Na marginal Pinheiros, até agosto, a CET registrou 144 acidentes e oito mortes. No mesmo período em 2016 a via teve seis mortes.

Por fim a CET defende sua metodologia de levantamento de dados, que utiliza as informações registradas nos boletins de ocorrência e que são acessadas por meio do Infocrim (Sistema de Informação Criminal da Polícia Civil).

“Trata-se da mesma metodologia de estatísticas utilizada pela companhia desde 1979, ano em que teve início o trabalho de compilação de acidentes no trânsito na capital. Esses dados consolidados, com base nas informações dos boletins de ocorrências, permitem uma comparação sólida da evolução das estatísticas por utilizarem a mesma metodologia.”

Sobre o Programa Marginal Segura, a CET afirmou que seu objetivo é levar segurança viária às duas vias e vai “muito além da readequação da velocidade”.

Uma série de ações foram feitas pela CET para melhorar o atendimento de emergência, e a Companhia cita a sinalização e a educação no trânsito, com foco em tornar as duas vias mais seguras.

Por fim a CET afirma que com o aumento de 67% no efetivo de agentes, “mais ocorrências nas marginais passaram a ser atendidas”, e o tempo médio de atendimento caiu em “até dez minutos” com o reforço de novos veículos de apoio como carros, guinchos, motos e ambulâncias.

PARA DORIA, “NENHUM ESTUDO É NECESSÁRIO SOBRE MORTES NAS MARGINAIS”

Mais á tarde, neste domingo, o Prefeito João Doria, ao lado do Secretário municipal de Mobilidade e Transportes, Sergio Avelleda, e do presidente da CET, João Octaviano Machado Neto, reagiu à matéria da Folha de SP.

João Doria voltou a negar a relação direta entre o aumento de velocidade nas marginais e as mortes nas vias. Ao afirmar que a prefeitura se esforça para “monitorar, sinalizar, orientar motoristas, pedestres, motociclistas”, os dados indicam que nenhuma das mortes nas marginais analisadas pela matéria da Folha de SP estão ligadas ao aumento da velocidade. E conclui: “Foram por outras causas: uso de celular enquanto se dirigia, consumo de álcool. Ou seja, pessoas alcoolizadas e imprudência, absoluta imprudência”.

Para Doria, “não são estudos [que permitem afirmar], são estatísticas. São fatos. Não é preciso nem estudar. Basta analisar as informações para se ter essa certeza.”

Avelleda reforçou a posição do prefeito: “Os números que nós temos das marginais apontam para uma estabilidade, e os acidentes que nós tivemos estão ligados diretamente à imprudência”.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transporte

Compartilhe


BUSCAR NO SITE